Um Brasil onde a maioria anda descalço enquanto a outra parte anda sobre ouro e diamante. Quanta diferença para pessoas vistas como tão pouco por aqueles que dominam o poder e o luxo. Um verde e amarelo que lança um chinelo selecionado para o mais corajoso da alta sociedade, mas um verde amarelo que não tem coragem de lançar um chinelo para os muitos do Brasil de baixo.
As empresas só querem fazer um diferencial, mostrar um país com outra cara, empreender, crescer, fazer do marketing a grande estratégia, mas esquecem que ainda é um país que tende cada vez mais dividir a sociedade em dois grupos, sendo que o de maior domínio sempre será o de mais poder.
E até onde poder é sinônimo de dinheiro? Que poder esses políticos e empresários exercem sob aqueles que nem sabem o significado disso, ou melhor, que para esses (maioria), PODER é apenas ter o que comer no fim do dia. Mesmo assim não podemos esquecer que o BRASIL, é monopólio de grandes investimentos, que apesar do tráfico, da violência, das desigualdades, estamos lá no topo dos grandes investimentos para os grandes e poucos calçados.
Por outro lado, os calçados temem os descalços, porque enxergam neles o drama de um brasileiro, que vive com a fome, com a extrema violência, infinitos problemas sociais e a falta do luxo. Falta do luxo? Esse é o grande problema de pessoas como Tenório e Tanagra, (do texto publicado na C. Capital), o medo de perder as regalias de um mundo fora desse contexto social, onde alimentar projetos empreendedores garante mais um ano de Johnnie Walker Blue Label e o glamour da moda.
Mas onde se encaixa um ícone da moda nisso tudo para trabalhadores como Gordo citado no texto, será que com tantas preocupações da para pensar em moda nas favelas e periferias do país? Talvez apenas alimente o sonho daqueles que pensam em ter uma oportunidade destas. E é nesse momento que a maioria chora, por alguém querido que esta no mundo o crime, justamente porque sonhou com uma oportunidade destas.
Depois disso, ainda da para levantar um fator de grande peso nessa divisão da sociedade. Regiões dentro das cidades selecionadas para os calçados, com muita segurança, com as melhores lojas do mundo, com a melhor recepção, com direito a tapete vermelho. Já os descalços são distribuídos em suas regiões, ou seus lugares de descalços. Nesses locais é possível encontrar o básico para sobreviver, onde a segurança fica por conta dos confrontos entre policiais e traficantes e a recepção de acordo com aparência de cada um.
Baseado no texto "Da cabeça aos pés", publicado na Carta Capital em dezembro de 2003.

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